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Observatório Digital de Resiliência Climática do Recife

Análise de Informações Financeiras

Os achados da pesquisa por trás do Observatório — do índice nacional que primeiro apontou o problema até o dinheiro linha por linha do orçamento do Recife.

A Execução Geral

Onde o dinheiro realmente foi

Somando os quatro anos: a cada R$ 10 prometidos para resiliência climática, mais de R$ 4 voltaram aos cofres públicos ou ficaram represados por inexecução.

R$ 2,48 bi
Autorizado

Dotação Atualizada total para ações ligadas ao ODS 11, somando 2022–2025.

R$ 1,46 bi
Liquidado

Valor efetivamente entregue no mesmo período — a realidade por trás da promessa.

58,95%
Taxa Média de Execução

Esconde um padrão: execução rápida e simples entrega quase tudo (Defesa Civil chega a 91%); o estrutural fica pra trás.

Essa média esconde um padrão bem definido: os programas de execução rápida e simples entregam quase tudo, enquanto os programas estruturais mais complexos ficam para trás — o pior caso é a Requalificação das ZEIS, que zerou.

Da Promessa Inicial à Entrega Real (2022–2025)

O Efeito 2022

Como a tragédia mudou — e não mudou — o orçamento

Em maio de 2022, um evento climático extremo (mais de 70% da chuva esperada para o mês inteiro caiu em 24 horas) provocou deslizamentos em áreas já mapeadas como de risco alto pelo Serviço Geológico do Brasil. O resultado: 133 óbitos oficiais e milhares de desabrigados.

A resposta orçamentária veio rápido — talvez rápido demais para ser bem executada. De 2022 para 2023, a dotação para o ODS 11 saltou 96%, passando de R$ 442 milhões para R$ 867 milhões. Mas a execução real cresceu só 32% no mesmo período — e em 2024 a Prefeitura precisou corrigir a dotação para baixo em quase 40%. A promessa orçamentária inflou mais rápido do que a capacidade real de entregar.

O caso mais emblemático desse descompasso é o ProMorar: em 2023, a dotação disparou para R$ 251,8 milhões, e apenas R$ 1,1 milhão foi liquidado — menos de 0,5%.

O Caso ProMorar: remanejado 84x em 2023, executado quase nada

O Ponto de Partida

Por que fomos direto pro orçamento, e não só pelos índices oficiais

Existe um índice nacional que avalia todas as cidades brasileiras nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: o IDSC-BR. O Recife pontua 48,23 em 100 — a 3.528ª posição entre os municípios do país. Olhando por dentro desse número, o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) é o terceiro pior desempenho da cidade, com 26,21, ao lado do ODS 10 (Redução das Desigualdades, 22,59) e do ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura, 23,63) — um conjunto que expõe uma vulnerabilidade que não é pontual, é sistêmica.

Radar do ODS: desempenho do Recife nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, com Cidades e Comunidades Sustentáveis (ODS 11) entre os piores índices
Figura 7 — Radar do ODS. Fonte: Instituto Cidades Sustentáveis (2024).

Só que esse tipo de índice tem um limite: ele mede com métricas genéricas (como "% de assentamentos precários"), que não captam a resiliência específica do território recifense. Por isso a pesquisa não parou no índice — foi direto para dentro do orçamento da própria cidade, linha por linha, para enxergar a realidade sem intermediários.

O Planejamento

Metas que protegem o gestor, não a cidade

O Plano Plurianual (PPA) 2022–2025 do Recife inclui formalmente o ODS 11 na sua estratégia. O problema aparece no detalhe: boa parte das ações usa a mesma meta genérica — "1 Atividade Realizada" — para medir coisas completamente diferentes, da requalificação de favelas (ProMorar) à despoluição de bacias hidrográficas (Saneamento Integrado). É uma meta binária: basta assinar um contrato para ser considerada cumprida, mesmo que nenhuma obra saia do papel.

Quadro 2 — Alinhamento Programático do PPA Recife (2022–2025) às Metas do ODS 11, com análise crítica da especificidade de cada programa
Quadro 2 — Alinhamento Programático do PPA Recife (2022–2025) às Metas do ODS 11. Fonte: elaborado pelo autor com base no PPA Recife (2026).

Outros dois problemas aparecem no mesmo levantamento: o planejamento não localiza no mapa onde os recursos vão — não há priorização explícita das Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) nem das áreas de maior risco geológico — e a meta 11.3, que trata de planejamento participativo com a comunidade, praticamente não existe como rubrica orçamentária. No papel, o Recife tem um plano alinhado ao ODS 11. Na prática, os indicadores que deveriam comprovar esse alinhamento são frágeis demais para isso.

Os 4 Eixos

Por que alguns eixos "performam melhor" — e por que isso engana

Olhando eixo por eixo, o ranking de execução parece dizer uma coisa, mas os detalhes dizem outra:

Infraestrutura Climática — 63%

A melhor taxa, mas puxada quase inteiramente pela manutenção rotineira de drenagem (89% de execução), enquanto obras mais complexas como o Saneamento Integrado (53%) e a Bacia do Beberibe (38%) ficam bem atrás.

Vulnerabilidade Habitacional — 58%

Se sustenta praticamente sozinha no Projeto Capibaribe Melhor (62%) — enquanto a Requalificação das ZEIS zera e os Projetos Habitacionais mal passam de 42%.

Prevenção de Desastres — 57%

Esconde o mesmo padrão: só a Defesa Civil (reativa) executa bem. As duas ações realmente preventivas — Urbanização de Áreas de Risco e ProMorar — juntas deixaram cerca de R$ 524 milhões sem executar.

Governança Climática — 27%

O pior eixo em tudo: menor execução e também o menor orçamento de todos (R$ 22,4 milhões no total do período) — sinal de que planejar e monitorar a política climática é tratado como segundo plano.

O Que Isso Revela

A cidade sabe reagir. Ainda não sabe prevenir.

O padrão se repete em todos os recortes: a gestão pública do Recife tem alta capacidade de resposta imediata a crises, mas falha de forma estrutural quando o assunto é transformação de longo prazo. Isso não é, majoritariamente, um problema de falta de dinheiro — é um problema de execução. É exatamente essa lacuna entre o que é prometido e o que é entregue que o Observatório existe para tornar visível, mensurável e cobrável.